Sobre o Tomar, o mingau e as nuvens esparsas.

Por:  Dev Swaran

A panela de mingau estava limpa aos olhos, não havia porque duvidar, mas por algum motivo, a secagem foi substituída por uma checagem detalhada. A mão pegou um papel branco e sequinho e friccionou lentamente toda superfície. Os olhos não tinham muita clareza quem ordenava as mãos. O fato é que ao final o papel saiu “quase todo branquinho.

Você há de convir, que o quase é um resultado bem insatisfatório em uma checagem destas.

As mãos lavaram, secaram, checaram novamente, guardaram a panela, mas aquele “quase limpo do primeiro instante”, foi como um botão que disparou muitas imagens na tela.

Uma cena do filme “o Náufrago” ficou em evidência alguns instantes: Depois de passar 04 anos lutando para sobreviver na Ilha deserta, quando o náufrago voltou ao conforto que a civilização oferecia, o personagem encenado por Tom Hanks não conseguia dormir na cama. Ele dormia no chão ao lado dela. O conforto se tornou estranho para ele.

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Este é o condicionamento de muitos sobreviventes. Pessoas que passaram por muitas situações de abuso, privação ou dor emocional, não conseguem por vezes receber ou “tomar.”

Elas podem usufruir um pouquinho do prazer, do conforto, mas se encolhem, se contentam com pouco, não se assentam no melhor lugar do sofá, deixam o melhor pro outro, em um gesto que pode por vezes até ser compassivo, empático, visto que não querem recriar a dor que conhecem bem, mas que igualmente pode guardar a distorção de estarem agindo como mártires, ou reproduzindo o script que alimenta “o não mereço”, ou ainda quem sabe, adotando o papel de bondade e renúncia para uma barganha com o desconhecido, na tentativa de evitar uma nova dor.

Nas relações, interações e sistemas, a saúde e harmonia acontecem no equilíbrio entre o dar e receber. E para que este equilíbrio ocorra importa ter o corpo e emoções disponíveis para os 05 movimentos: dar, receber, pedir, recusar e “tomar” se expressem no fluir de cada instante.

O tomar refere-se a simplesmente, você ir lá e pegar sem reservas ou resistência aquilo que lhe é de direito, ou que a vida disponibilizou como dádiva. Mas existem as crenças…

“Quando a esmola é muita o santo desconfia…”

Não só atendendo em psicoterapia, mas também conduzindo grupos, vejo com frequência o drama dos sobreviventes em lidar com o prazer e inibição frequente, em: pedir, receber e tomar.

Mas lavando a panela de mingau, no sujo quase invisível que por algum motivo as mãos e olhos insistiram em encontrar, me dei conta como alguns padrões de sobrevivente ainda persistem em permanecer de forma quase invisível aqui dentro.

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A vida oferece a mim ou a você, o néctar precioso em abundância e servimos com conta-gotas, ou nem servimos e seguimos mendigos.

Depois de décadas ariando a panela do que ficou do mingau da infância, supunha que ela estava limpinha, limpinha, que já havia uma dinâmica saudável, no pedir, receber, recusar e tomar…
Mas vi no insight do sujinho da panela, que ainda há uma tendência em situações muito pontuais, a dormir no chão do lado da cama a economizar o riso, a esconder a alegria que pulsa dentro.

O resíduo permanecerá como possibilidade, enquanto resistir a insistência de provar e servir o mundo em alguma forma. Onde o sujo poderia grudar se não houvessem bordas?

“Nuvens virão e partirão, e o céu permanece tão vazio como sempre.As nuvens não deixam marca alguma sobre o céu vazio.E da mesma maneira que fora existe este vasto céu vazio – imensurável -, do outro lado, dentro, existe o mesmo infinito. Você está bem no meio, entre uma infinidade externa e uma infinidade interna. Você pode ir em qualquer direção – Para fora, não encontrando limite algum, ou para dentro, não encontrando limite algum.” – Osho

📍 Imagem espetacular que encontrei no Pinterest sem no entanto encontrar o autor para honrar.